Chinho do Chuva Negra, SEM CENSURA!



“Eu tinha 16 anos. Aquele foi o primeiro show que eu toquei com o FullHeart. Você acredita?”
PHCBR: Caralho mano...na minha casa?
Chinho: Primeiro show, mano. Foi na sua casa. 1999.

Foi nesse clima que começou a entrevista com Rodrigo Chinho. No boteco, tomando cerveja.
Após me confidenciar que seu primeiro show pela saudosa Fullheart rolou num festival de bandas no quintal de minha antiga casa, o vocalista do Chuva Negra abre a caixa de Pandora e fala sobre os tempos de Fullheart, a atual fase do Chuva e muito mais. Em meio a mais de uma hora de gravação, separamos os melhores trechos:

Início do Fullheart

- Minha mãe me levou lá (festa da minha casa). Ela me levou pra trombar os caras do Fullheart no metrô. Acho que ela me levou pra ver com quem eu tava me envolvendo. Quem tava lá era o Boi (guitarrista), mais “boça” que eu (risadas). Então, foi de boa. Esse show aí foi um mês depois que eu entrei. O Fullheart já tava pronto, só tinha outro nome. Já tinha agendado um show no Tendal da Lapa um dia depois desse show na sua casa. Eu já tinha tido outras bandas menos sérias. Eu já tinha tocado ao vivo antes. Banda cover, autoral também. Mas o Fullheart foi a primeira banda de verdade que tinha uma agenda e tal.

Carta a um amigo

- Foi a primeira música que eu escrevi pro Fullheart. Quando eu entrei foi assim, 7 dias depois que ele tinha morrido.  E o Boi perguntou se eu tinha uma letra. E essa foi a primeira musica que eu escrevi e a primeira musica que o FH gravou que era minha. Aí, depois disso, a gente gravou o “algo sobre nós”  em 2001. Aí a banda ficou até 2007. A gente gravou “A Meta” em 2003. Depois, em 2006, “Homem de Lata”. E aí a banda acabou um ano depois.

Fim do Fullheart

- Quando você começa uma banda e tem 16 anos você abre mão de muita coisa. Eu nunca namorei firme com ninguém, festa dos camaradas eu não ia em nenhuma. Você não tem uma agenda social. Tudo que você enxerga no fim de semana é tocar.

- Até 2003, as coisas funcionavam bem. Tinha gente que gostava da banda. Depois começou a descambar, começou aquela coisa de festival grande. Aí todo mundo querendo ganhar dinheiro. O povo quer viver de banda, aí a coisa começou a descambar. Acho que 2004 foi o limite. Em 2006, eu tava desempregado, ninguém da banda trabalhava. A gente pegava dinheiro de cachê e tudo que eu queria fazer era usar droga e beber.

- Às vezes a gente ia tocar no sul, minha mãe fazia uns lanches de pão Pullman e colocava num saco. Ela me conhecia e sabia que eu não ia ter dinheiro pra comer e que eu não ia tomar conta de mim. Ia sair de casa com uma mochila e uma toalha e já era. Aí na van a gente brigava por causa dos lanches. Os caras ficavam com fome e eu também ficava com fome, chega uma hora que o efeito (da droga) passa. Tinha uns caras próximos da banda que já viajavam junto. Os caras traficavam dentro da van. Imagina o cara do seu lado vendendo o bagulho pra você. E eu falava: “Mano, que inferno que eu tô vivendo?”

Formação do Chuva Negra

- Logo depois que o FH acabou, eu tentei já montar uma banda e já tinha o nome de Chuva Negra. O batera do FH era o batera que começou no Chuva Negra. A gente fez um ensaio, só que não rolou. Aí o Thiago (Guitarra) me falou assim: “Tenho uma música e preciso te passar pelo telefone”. Aí ele me mostrou o riff e eu falei: “Mano, vamos montar. Vem comigo!”. Aí peguei o Douglas (baterista) e o Thiago.

- Aí a gente começou a colocar uns caras na banda. Aí a gente tentou o Dan que era do Running Like Lions e do Good Intentions, só que ele não curtiu muito. Aí a gente tentou outros caras que também não curtiram. Também não culpo eles, a gente tava bem desencanadão. Aí o Thiago chamou o Gabriel (baixo) do Middlename. Eu não botei uma fé que ele ia entrar porque ele é muito vileiro. Ele nunca pertenceu a esse mundo. Ele conhece dez bandas e até hoje ele ouve as mesmas dez bandas. (risadas)

- Quando o Gabriel entrou, o Douglas tinha planos de ir pra gringa. E aí eu chamei o Marcelo (ex-Falante/Bandits) pra tocar bateria, e ele chamou o Mateus (guitarrista). Então, formou o time e com essa formação a gente gravou o “Terapia”.

Fase atual

- Não tenho do que reclamar. Desde o começo a gente sempre teve aquela política de não cometer os mesmos erros. Aquela gana de tocar, pra não ficar um saco. A gente até toca bastante, mas não é uma banda full time. E acho que é por isso que a gente consegue tocar até hoje, mas como qualquer outra banda, tem prazo de validade.

- Até agora foi meio “flawless victory”. Tipo, fiz cinco shows merda. Perrengue, tem. Mas de resto não tem do que reclamar.

 Shows

- Já tocamos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná. Rio, acho que seis vezes. Minas, Mato Grosso do Sul. A gente não tocou ainda em todos os estados que a gente gostaria. Falta nordeste, Goiás, Mato Grosso.

- O show que eu tenho mais carinho foi o primeiro em Curitiba. Quando a gente tocou numa universidade federal lá. Foi totalmente “faça você mesmo”. Tinha uma galera alucinando. Aquele dia foi foda. Curitiba é sempre foda. Rio Grande do Sul também.

Influências Gringas

- Tem coisas que eu nunca parei de ouvir. Meu arroz e feijão, primeira leva de hardcore americano, até 86 ali. É uma parada que eu nunca deixei de ouvir. Bad Brains, Dead Kennedys, Urban Waste, Reagan Youth, Descendents.

- Teve as modas. Teve várias modas. E eu comecei a ter a noção do que o hardcore é mesmo. Ainda mais naquela época de 97, 98. Você ouve Madball, você acha que Madball é metal, só que é da rua. Madball conquistou a galera do metal nessa época. Sick Of It All também. Então quando você é mais moleque, você não tem muita noção do que é exatamente.

- Aí eu peguei umas modas. Peguei o começo do post-hardcore. Mas aí começou a ficar muito “metemo”, muito “screamo”. Aí eu já não curti. Hopesfall, Poison The Well. Aí eu já não ouvia mesmo.

Nacionais

- Eu gosto muito de Ratos de Porão, Mutantes, Cascavelletes, Fogo Cruzado, Cólera.

- Não tem como não falar que Dead Fish não influenciou. Porra, quando saiu o Sonho Médio, quem não ouvia aquilo ali? Todo mundo pirava! Porque você não conseguia conceber como um CD com uma capa horrível, aí você pensava como os caras lá do Espírito Santo tão fazendo esse som aí? Então, o Sonho Médio foi uma grande influência com certeza.

- Outras bandas nacionais que me influenciaram muito, era muita coisa Straight Edge. No Violence. pra caralho. Point Of No Return. Isso aí eu ia em show sempre. Tinha tudo que saía. Qualquer coisa!. Os primeiros lançamentos da Liberation. Comprava todos sem nem saber qual que era. Eu ficava mais ligado nisso aí.

 O que é ser vocalista

- Minha voz é muito limitada. Às vezes a molecada me pergunta (o que fazer para ser vocalista). A primeira coisa, não é aquela coisa daquele clichê: Crie sua própria identidade! Não sei se isso eu aprendi com o punk, você que tem usar o que você tem. Não tem que ser uma desculpa pra não aprender, mas você tem que utilizar o que está ao seu redor. Minha voz é limitada, eu fiz aula de canto na época que eu tava no FH. Pra eu conseguir aguentar o ritmo do set list, shows, técnica de respiração.

- Mas eu nunca vou ser um grande cantor, sabe? E se você pegar os caras fora do punk, a maioria dos caras, se você falar esse cara mudou o jeito de fazer isso.. Eles tinham limitações. Pega o Roberto Carlos, a voz dele é fraquíssima. ´Você pega o Jorge Ben, não sabia tocar direito. O cara inventou o samba rock! O jeito merda de ele tocar que fez o negocio virar. O Bob Dylan com aquela vozinha dele. Acho que essa maneira de pensar que não é a formula pronta, é o que faz o  grande artista. O jeito errado, o jeito marginal. Mas aí você pega a coisa pré-concebida. Aí fica sem graça. É fácil de fazer. É fácil de achar.

Conquistas

- Tanto tempo nisso aí. A coisa melhorou. Pelo menos hoje eu tenho cerveja no camarim. Alguma coisa melhorou, com certeza. Mas o que eu guardo de tudo isso, até minha esposa admira, é minha noção geográfica. Uma vez eu tava tocando em BH e a gente estava num bar. Tinha um camarada de Santos, tinha uma galera de Curitiba que a gente conhecia. Um camarada que fez um show nosso em Brasília. Mano, você faz o Brasil parecer uma gaiola. É isso que eu acho do caralho. Você não se sente sozinho. Você fica uma coisa tão segmentada. Tipo uma galera que fica tudo no bueiro, tipo no submundo e que me entende. Isso aí é o que vou guardar.

- Gente que chega pra você e fala: “Eu parei de usar drogas por causa das suas letras”. Eu tinha um camarada que tentou se matar. Se jogou na linha do metrô. Aí eu mandei pra ele e ele falou: “Meu você não sabe como me ajudou isso”. É o tipo de coisa que você não consegue fazer através do que o mundo normal te propõe. No máximo, o que você vai poder fazer é uma obra de caridade. Essa maneira de tocar as pessoas, eu só conseguiria se fosse através do punk e do hardcore.  De outra forma, eu não conseguiria. Eu nunca fui um bom aluno, nunca fui um bom profissional, nunca fui um bom filho. Foi um grupo que me acalentou. É um mundo diferente.

Cold
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