PHCBR entrevista: Cosmogonia


Alguns singles/participações em coletâneas, diversos shows pelo Brasil, muita luta, história e participação ativa no movimento punk/hardcore. Com a formação diferente, mas como a mesma garra e resistência da década de 90, estamos falando da Cosmogonia, banda de cunho feminista que voltou à ativa em novembro de 2017, após 15 anos de hiato!

Para comemorarmos esse retorno ao palcos, tivemos a oportunidade de conversar com as meninas da banda. Elas nos contaram um pouco da história da Cosmogonia, as dificuldades enfrentadas na década de 90 e ainda hoje.

Confira o papo logo abaixo:

1. Certo, vamos começar apresentando a banda pra quem não conhece ainda. A Cosmogonia iniciou as atividades no ano de 1993, em Osasco e já passou por algumas mudanças na formação. Nos conte um pouco dessa trajetória, de quem foi a ideia de começar a tocar e como foi o processo de construção do nome?

O desejo de montar uma banda somente com mulheres era muito forte. Em todos os shows era somente homens e homens a frente! As mulheres não tinham espaço. A participação era mínima e se tornou inaceitável fazer parte da subcultura libertária e fechar os olhos para essa situação. E porque não mudar?

No final de 1993, a Elis formou a banda junto com outra amiga de trabalho, a Renata Tolli, (ambas eram professoras).  O ativismo estava presente no dia a dia, no trabalho como educadoras e com algumas publicações  como fanzines, coletivos e grupos de afinidade para as ações diretas. Foi muito complexo levar a ideia da banda adiante morando na periferia, com poucos recursos, trabalhando, estudando, cuidando de filho e apoio quase nulo.

O nome Cosmogonia surgiu devido a Elis ser historiadora. Em meio a uma lista, acabou sendo o escolhido e significa a teoria da formação do universo.

2. Houve algum motivo em especial pra vocês decidirem encerrar a banda? Qual foi o sentimento de vocês quando pararam de subir aos palcos?

Não aconteceu nenhuma treta ou briga que levou ao fim da banda. Cada integrante estava em um momento diferente da vida e as atividades entre banda e compromissos pessoais estavam nos impedindo de conciliar tudo entre todas, então decidimos acabar.

3. Bom, chegou 2017 e vocês anunciaram que iriam voltar a tocar, particularmente, agradeço por isso! Por que e como decidiram voltar aos palcos? Nos conte um pouco sobre essa nova formação também!

Na verdade nossa volta foi algo inesperado acho q pra todas nós. Foi meio que a Elis conciliando contato entre a Teté e a Gabi, aí a Gabi resgatou a Dani e de repente tínhamos um grupo no whatsapp... (mas sem pretensão de volta da banda ainda), como procuraram a Cosmogonia pra algumas entrevistas sobre o movimento Riot no Brasil, acabamos nos reaproximando e revivendo histórias da banda e nossa passagem por ela... Calhou de estarmos em momentos da vida em sintonia e também com muita vontade de voltar a tocar e a dividir o q vivemos e o que pensamos! Ainda mais depois de tudo o que tem rolado no atual momento político no nosso país, entendemos que muitas coisas precisavam sim ser ditas e queríamos de certa forma preencher mais espaços com bandas contendo integrantes femininas e conteúdo feminista, fazendo assim uma ocupação maior na cena underground. Mas quem agitou mesmo a volta foi a Elis, que mesmo de longe sentiu que estávamos nesse momento antes que nós mesmas tivéssemos nos dado conta disso.

No início do retorno, estávamos: Gabi, Teté e Dani e como a Gabi que tocava baixo assumiu o vocal, íamos precisar de uma nova baixista. Foi então que pedimos uma ajuda pra nossa amiga Fernanda Terra, que na mesma hora nos disse que tinha uma amiga pra indicar. E foi assim que conhecemos a Karol! No 1º ensaio que marcamos, ainda não nos conhecíamos ao vivo e tal e quando aconteceu... foi perfeitamente perfeito! Tudo se encaixou, nos demos bem e assim consolidou-se nossa nova formação: Gabi, Teté, Dani e Karol!

4. Vocês estão na estrada há muito tempo e já devem ter passado por muita coisa tocando em vários lugares do país. Além disso, a banda claramente quer passar uma mensagem feminista com críticas a sociedade misógina e patriarcal em que vivemos. Como era ter uma banda só com mulheres nos anos 90? Tem alguma história que envolve machismo e preconceito que ficou marcada?

Foi complexo. A visibilidade feminina no punk/hardcore era quase nula. Expressar nossas convicções e promover o empoderamento era quase inaceitável na cena dita libertária. Era basicamente nós por nós mesmas: estávamos todas já produzindo zines, debates, formando grupos de afinidade, organizando alguns dos nossos Fests e às vezes uma mulher tocava em 2 ou 3 bandas. 

Gravar a primeira demo tape foi demorado. Não tínhamos recursos financeiros para bancar uma gravação. Foram tantas histórias ao longo dos anos, mas a q mais marcou foi um show com bandas “importantes” da cena paulista q se recusaram a tocar quando souberam que nós: uma banda feminista também tocaria.  Foi uma época que uma grande parte da cena punk/hardcore não aceitava o fato de ter mulheres a frente com os instrumentos, o ambiente era totalmente hostil.

5. Quais foram e são as maiores influências musicais pra vocês?

Bom, cada uma de nós tem uma vivência, mas em comum nossas influências vem do punk/hardcore e de certa forma e não dá pra fugir muito do que todas nós temos como “formação musical”.
Mas falando de cada uma: a Elis sempre teve uma conexão muito forte com o Punk e as principais influências dela sempre foram Bikini Kill, Sick Of It All, Pennywise, Bad Religion, Motorhead e Minor Threat.

Algumas influências da Gabi: Cólera, Atitude, Cosmogonia (ela era fã da banda desde 1998), Misfits e Elis Regina.

 Algumas influências da Teté: Hole, Nirvana, Pennywise, NOFX, No Fun At All e Rita Lee.

Algumas influências da Dani: Bambix, Silverstein, Bad Cop Bad Cop e Street Bulldogs.

Algumas influências da Ka: Pennywise, 7 Seconds, RHCP, Jamiroquai, Weather Report, Dream Theater e Earth Wind & Fire.



6. A Cosmogonia tocou recentemente no Apoia Mútua, que contou com diversas outras bandas de cunho feminista. Qual o sentimento de vocês sobre esse evento?

Esse evento foi muito lindo emocionante com muita união e apoio mútuo das minas que estiveram presentes. Ficamos extremamente felizes e animadas de presenciar essa energia foda que rolou nesse Fest. Foi nosso retorno oficial e tivemos uma recepção muito boa do público presente. Inclusive, gostaríamos de deixar registrado toda nossa gratidão às organizadoras do Apóia Mútua: Bruna, Michele e Jéssica, que fizeram das “tripas, coração” para que esse fest lindo acontecesse.

7. Estamos em 2018 e eu como parte do público, posso perceber que há mais espaço para bandas de mulheres em eventos e festivais. Mas, queria saber qual a visão de vocês como banda: estamos muito longe de ter um cenário musical igualitário? Qual é o maior obstáculo a ser quebrado hoje em dia (público, produtoras, etc.)? 

Infelizmente, em pleno ano de 2018 ainda achamos que estamos muito longe sim de ter um cenário musical no underground totalmente igualitário. O que notamos que evoluiu foi a união das mulheres entre si nesse cenário. Já que não temos espaço em Fests grandes com as bandas que são predominantes nessa cena, o “faça você mesma” tem que valer dia a pós dia pra nós mulheres.

 Não é de hoje que fomos e somos excluídas de festivais: ou porque somos mulheres, ou porque os organizadores tendem a colocar as bandas apenas que agradam a eles próprios (e claro, bandas com homens), mas nesse retorno temos contado com o apoio de pessoas maravilhosas que sempre acompanharam o trabalho da Cosmogonia no passado, nos dando uma força incrível para ocuparmos um espaço ainda majoritariamente ocupado por homens. Esse é mais um dos motivos pelos quais resolvemos voltar. Devemos ocupar, devemos resistir.
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Próximos shows da Cosmogonia:

15/06 - Underground Club/SP
23/06 - Estúdio O Beco/SP
30/06 - Casa Vulva/SP (BIG Dia da Música)
21/07 - Espaço 555/SP (Warriors Festival)


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